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Uma pequena observação e exercicio sobre The Thin Red Line- 1998 e os Três Conhecimentos Pessoais.

  • Foto do escritor: Agulheiro 310
    Agulheiro 310
  • 6 de set. de 2020
  • 5 min de leitura

Ainda sobre São Bernardo.


por Cineclube Agulheiro 310.


Conta-se que São Bernardo era capaz de uma distração quase total das coisas terrenas, uma distração inumana (inumana para nós que somos miseráveis e não conseguimos imaginar uma distração maior do que a nossa distração de coisas pífias), quando em umas das suas viagens a serviço da Igreja, ele e seu companheiro, que caminhavam o dia todo, passaram pelo lago de Genebra, chegando ao destino o companheiro de Bernardo o indaga <Não era um lago glorioso, Dom Abade?> mas com toda honestidade Bernardo responde <Que lago? Não vi lago nenhum>.

Em alguns filmes, principalmente de guerra, o exercício de se pôr no lugar de algum personagem torna a película mais emocionante. The Thin Red Line (Além da Linha Vermelha) é um filme ótimo para esse exercício. O filme pode ser visto de um amplo prisma dimensional (longe da linguagem new age que permeiam as conclusões cinematográficas) da dimensão religiosa até a dimensão da saudade da mulher amada ou da pátria amada. O filme tem um toque estético bem aprofundado com experiências visuais e sonoras bem apresentadas. Com um toque existencialista na narrativa que questiona os sentidos da vida, assim The Thin Red Line é um filme para ser assistido várias vezes.

Escolher um único personagem não é uma tarefa tão fácil, mas pode-se pensar como qualquer personagem e fazer um exercício imaginativo: imaginemo-nos em qualquer cena, como se fosse uma realidade presente, podemos criar alguns questionamentos, será que seremos homens suficientes para acatar ordens dos superiores sem pestanejar, seremos fiéis o suficiente para voltar aos braços da nossa amada ou se seremos homens suficientes para defender nossa terra, defender nossos colegas, nossa gente, nossa pátria, como no glorioso filme de Jean Renoir This Land is mine (Essa Terra é Minha – 1943) que é uma lição de amor a nossa terra.

Apesar de ser um Abade responsável por uma comunidade, São Bernardo era de fato um contemplativo que se abstraía de qualquer situação ou atividade terrena desse mundo, como, por exemplo, “o número de janelas na frente da igreja na qual passou toda a sua vida: ele simplesmente não tinha certeza de quantas havia”. Bernardo era um contemplativo, que quase se privava da atenção do mundo ordinário.

Para Bernardo, uma relação precisa estar fundada na verdade, portanto o ser humano deveria chegar a essa verdade acerca de sua própria pessoa, de outros seres humanos e das pessoas divinas, podemos ver isso em The Thin Red Line na figura do soldado Witt, que ainda tem esperança mesmo presenciando os horrores da guerra.

Talvez o foco do filme seja outro, revelar algo em alguma batalha em plena Segunda Guerra Mundial, talvez o diretor Malick nem pensou nisso, mas o exercício imaginativo Chestertoniano é como uma ascese.

Em todo momento o filme nos apresenta conflitos psicológicos não apenas de um personagem, mas de todos, é como se todos os personagens carregassem uma bagagem pesada demais para essas batalhas. Do soldado confuso até um comandante, de alta patente, a importância é a mesma. Vemos constantemente o pensamento de cada personagem em uma narrativa peculiar, uma narrativa que remete uma introspecção, uma busca pela verdade.

Mas para São Bernardo a nossa verdade não é a verdade do nosso próximo, nem a verdade sobre Deus que recebemos. Para ficar claro, a verdade sobre nós é humildade, quando somos, e a verdade do contato com o próximo é a caridade, quando fazemos; “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mateus 6:3) e a verdade sobre Deus que temos a benção de receber é a contemplação (mas não a verdade que surge de algumas mentes insanas e intoxicadas com o secularismo). Então aqui temos três verdades: Humildade, Caridade e Contemplação. É possível encontrar isso em um filme sobre a segunda guerra mundial, já encontramos “Os Quatros Graus do Amor” em um filme apocalíptico, podemos tentar fazer esse exercício.

Para Bernardo essas verdades devem ser buscadas na ordem correta, caso contrário, nunca chegaremos à verdade em absoluto, e ficamos por aí com meias verdades usando para justificar nossa miséria.

Se fingirmos que somos tão importantes, retos, talentosos, puros de coração, generosos, nós vivemos uma mentira.

Para São Bernardo a Humildade é a verdade que requer mais esforço, a verdade sobre nós mesmo, uma verdade dolorosa, talvez em qualquer personagem essa verdade seja um “espinho na carne” como diria o Apostolo São Paulo (2 Coríntios 12-7). Bernardo nos lembra de que somos a lente do nosso conhecimento, se temos uma lente suja, como será nosso conhecimento de nós mesmos e até mesmo de Deus?

Quantas noções distorcidas de Deus são o resultado de um conhecimento impuro de nós mesmos?

Bernardo coloca o conhecimento filosófico clássico tradicional à mostra: conhece-te a ti mesmo. Nós estamos no centro de toda busca da sabedoria.

Para nós a Humildade é um desafio, para São Bernardo é “Humilitas est virtus, qua homo veríssima sui agnitione sibi ipsi vilescit” (Humildade é a virtude pela qual um homem, através de um conhecimento sempre mais verdadeiro de si mesmo, gradualmente diminui em valor aos seus próprios olhos). Saber a verdade sobre nós mesmos, para Bernardo, é infinitamente mais importante do que fingir possuir todas estas qualidades que na realidade não possuímos, fingindo ser o que não somos. Você pode fazer isso se quiser, mas isso não será uma verdade e sim um exercício de fingimento. The Thin Red Line nos mostra tais caminhos, como podemos fingir ou realmente tentar buscar o caminho para alcançar tais verdades. Tanto em The Thin Red Line como para São Bernardo, um dia, com a graça de Deus, podemos ter tal honra de alcançarmos as três verdades, mas não esqueçamos de que conhecer a verdade acerca de nós mesmos é a única possibilidade de conhecer realmente outras pessoas, em última instância de conhecer a Deus (não como miticamente imaginamos ou nos é apresentado, mas como Ele realmente É).

Para São Bernardo, chegar à humildade é buscar constantemente a verdade sobre nós mesmos julgando a nós mesmos, não como um carrasco, mas como um Bell, como capitão Staros, soldado Keck, como o tenente Whyte ou o soldado Fife.

Significa chegar a um tribunal que mostra toda nossa miséria, sem negar os vislumbres de percepção para dentro de nós mesmos, sem esconder o reflexo da verdade que é a nossa consciência, que é a nossa alegria na desgraça do próximo e, de repente, somos confrontados com o que acabamos de pensar e imaginamos o quanto somos miseráveis.

São Bernardo nos alerta para descobrir os aspectos menos amáveis de nós mesmos e a renunciar ao ídolo que pensamos que somos e não somos. Mas, coragem, pense que você está na segunda guerra mundial e se nutra da verdade, mesmo ela sendo um prato nem sempre delicioso, pois isso abrirá um portão para o conhecimento feliz do próximo pela caridade e ao conhecimento extático de Deus pela contemplação.

Não sabemos muito sobre cada personagem, o que sabemos parece ser a “única verdade” sobre eles. Conhecemo-los de uma forma gradual através de Witt, um desertor que nos leva aos outros personagens. É ele que nos tira do paraíso para levarmo-nos para o inferno em busca da redenção.

Malick nos apresenta um conjunto de imagens, em atos, em que cada personagem nos traz algo para chegarmos à humildade de sabermos que somos miseráveis e esperamos algo acontecer para nos salvar, é como se gritássemos por socorro. The Thin Red Line é um filme a nos apresentar o olhar de cada personagem que está distante de sua terra e busca sobreviver. É um filme para Além da Linha Vermelha da nossa imaginação, é um filme que nos mostra uma solução cinematográfica para o homem: buscar realmente a verdade para a batalha contra nossa miséria.




 
 
 

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