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Um breve texto sobre o filme Gummo e a decadência de um mundo moderno.

  • Foto do escritor: Agulheiro 310
    Agulheiro 310
  • 3 de mar. de 2021
  • 3 min de leitura

Por Cineclube Agulheiro


Gummo (título original) é um longa-metragem de 1997 dirigido por Harmony Korine (Trash Humpers - 2009 e Mister Lonely - 2007). Korine nos leva para um cenário real pós-apocaliptico, mas precisamente em Xenia, localizada no estado de Ohio, um lugar devastado por um tornado, que trouxe mortes e destruiu famílias inteiras, restando apenas um amontoado de entulhos e pessoas com seus diálogos surreais; esse é o cenário ideal para Korine mesclar cenas reais com ficção implicando ainda mais na inexistência de uma ordem. Todas as cenas são apresentadas a partir de uma perspectiva surreal, com diálogos e uma trilha sonora que leva-nos a uma cidade totalmente poluída, uma cidade que se tornou o reflexo da miséria humana, em qualquer canto que se olhe lá estão gatos envenenados, bonecas sujas, roupas imundas, banheiras com água podre, cenas toscas que mais poderiam fazer parte de uma Sexta-Feira 13.

O filme nos leva para dentro de um labirinto sem início e sem fim, somos arremessados para dentro desse filme transformando-nos em anti-heróis. Tudo leva a um lugar povoado de miseráveis, na antivida pautada apenas na sobrevivência cotidiana entre cadáveres que se esqueceram de deitar em suas covas.

Somos jogados para o *White Trash, um verdadeiro freak show da humanidade submersa na podridão de um mundo moderno que não está distante da realidade do anti-herói, e isso vai definir a liberdade de escolha durante toda a realidade cinematográfica. Harmony Korine mostra algo que perturba pessoas que se autorrefletem na miséria de todos os personagens, essa é a dura realidade cinematográfica, aqueles que não são anti-heróis são os heróis do filme e estão esquecidos até por sua própria cova. O mundo moderno é assim, aqueles que não são corrompidos com uma ideologia recheada de chavões são os anti-heróis, o contrário se dá como um ato de heroísmo. O retrato da realidade é real e Korine expõe com crianças cheias de vida, jovens que estão perdendo a vida, adultos que estão nessa vida e velhos que já estão passando por essa vida, existe uma terceira via, a via das pessoas alienadas da vida real, retratada na moça que depila sua própria sobrancelha e ri na frente de um espelho. A escolha é do espectador: o anti-herói, o herói ou a alienação, esta é oposta às duas anteriores.



Gummo e a Pandemia.


Atualmente, somos bombardeados por todo o tipo de informações acerca da Pandemia, o que mais chama a atenção não são as informações, mas sim a quem elas atingem. Isso é o suficiente para pensarmos em tudo que é essencial e, nesse caso, regras não são essenciais, mas são impostas, tornando-se vital acatá-las. Por fim, sentimo-nos como numa luta de bêbados contra uma inofensiva cadeira.

Use máscara, fique em casa, lockdown, distanciamento social, vacinas, leitos, UTIs, mortes, governo, dinheiro, milhões, bilhões, esses são os novos chavões. Harmony Korine poderia muito bem ter gravado Gummo dentro desse furacão de opiniões, digo informações (não essenciais).

O mundo moderno é uma Xenia (soa como um xingamento de boteco), um verdadeiro paraíso para os obedientes cidadãos que amam obedecer “isolamento, novos muros e mais quarentenas”, que, como bem lembrou **Zizek, “não resolveram o problema”. Eles obedecem e se um anti-herói não obedece, é linchado, escorraçado e chutado, como os gatos de ***Tummler e Solomon, e depois vendido para o primeiro campo de trabalho forçado que encontrarem na esquina dessa Xenia tupiniquim.

Os decretos dos Governadores são os diálogos de Gummo, surreais, hiper-realista, escritos em Miami, na praia, nas mansões, por algum especialista youtuber influencer, neto de algum Átila, irmão do caos global, uma Xenia.

O amor que veio com a Pandemia é a nova barbárie primitiva pronta “para transformar a convivência social num verdadeiro paraíso terrestre”. E nós, os anti-heróis, somos os gatos nas mãos de dois delinquentes cheiradores de cola que passam o dia vagando por um amontoado de lixo e buscando satisfazer os desejos no corpo demente de uma jovem qualquer. O mundo moderno é o submundo de uma Xenia devastada e povoada por um bando de miseráveis, o caos que veio com o furacão da Pandemia é o novo cenário para o Gummo. O resto é um coelho especialista em nadar na chuva.

Mas tenha calma, onde terminam os dados e onde começa a ideologia?





Nota: 4 agulheiro


*Lixo Branco, termo utilizado para pessoas brancas de baixíssimo estatuto social, cultural e econômico. Equivale a chamar as pessoas de selvagens ignorados pela civilização.

**Slavoj Zizek escrito esloveno

*** personagens principais do filme Gummo




 
 
 

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©2020 Cineclube Agulheiro 310.

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