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Personagem e arte

  • Foto do escritor: Agulheiro 310
    Agulheiro 310
  • 6 de abr. de 2020
  • 2 min de leitura

Cansado do produto criado pela indústria cinematográfica, cujas novidades são apenas uma variante da ordem de elementos, como peças do mesmo jogo, alteradas de lugar para parecer outra coisa, mas que cada vez menos tem algo a dizer a quem vê o cinema como arte e não como aquilo que diverte enquanto se come pipoca, procurei durante um tempo produções do passado para ver no que dava.

O que dizer de obras que rompem com os conceitos exaltados pela inteligência, que no início evocaram todos os nossos ideais estéticos, prontos a criticar Federico Fellini, quando este nos apresentava Gelsomina*, uma moça feia, sem dote algum, submissa e ingênua como uma criança, mas com pretensões artísticas? O plano da mãe de entregá-la a um apresentador mambembe em turnê para salvá-los da fome, a leva a uma vida muito pior que a de antes, carregando-nos juntos nesse pesadelo, mas que bem poderia ser nosso destino concreto, a morte no anonimato.

Isso lembra os fatores que um criador pode controlar e outros que não pode, resultando na esplêndida figura masculina de Rio**, encarnado por Marlon Brando, e a renúncia do crime e da vingança que transfigura o bandido em pai.

Também as incertezas em que nos deixa, após um início promissor, Ingmar Bergman, que nos abandona sem dar mais explicações, quando passaremos bons dias a divagar, indagando se o contemplativo Antonius Block*** atingiu o conhecimento que ardorosamente buscava ao ser encurralado pela morte.

Em quê personagens e trabalhos tão diversos se assemelham sendo, ao mesmo tempo, admiráveis?

Ainda que nos deparemos com um bom filme, temos certeza de que ele não é o definitivo, nem poderia, pois nem a verdadeira filosofia ousou dar a última palavra, que impedisse-nos de continuar em nossa busca da verdade e nossos sonhos, aos quais são tão perniciosos a ideologia e o preconceito. Certamente há também a boa arte, caso de muitos filmes antigos, e ela não impedirá nossos vôos de fantasia, a quebra da rotina e das incrustações das idéias fáceis e prontas; e que ao sentarmos diante da tela, a cada vez, esperamos ser surpreendidos, pelos sonhos de um autor que, como por osmose, passam a fazer parte dos nossos.

*A estrada da vida (1954); **A face oculta (1961); *** O sétimo selo (1957)

Filme La strada (1954) Direção: Federico Fellini

 
 
 

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©2020 Cineclube Agulheiro 310.

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