O poder da palavra
- Agulheiro 310

- 30 de mai. de 2020
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Cirilo se aproxima de Andrei Rublev, pergunta se este se lembra dele. Cirilo partira há muito tempo, expulso pelo diretor da congregação. Voltou pedindo clemência. Andrei não responde, está calado. Não fala com ninguém. Dizem por ali que é assim que vivem os santos.
Na poesia, no cinema, na literatura e na filosofia está o registro de um sentimento humano que tem fundamento na sua própria natureza, o de que o discurso humano é limitado e, às vezes, mais ganhamos em renunciar ao conhecimento da verdade, para encontrar alguma felicidade ou a salvação, longe do palavrório. Em diversas épocas, figuras duvidaram da capacidade da palavra. Pirro, uma delas, viveu na Grécia entre 360-270 a.C. Para ele, teses opostas tinham igual peso eloquente e o mais razoável seria alcançar o estado de aphasia (silêncio), para depois obter a tranquilidade de espírito. O pirronismo se prolongou no tempo e seu cepticismo colocou em dúvida até a própria doutrina.
Até algum tempo atrás, na grande mídia ainda se falava em ética da profissão jornalística num sentido bem hipócrita, mas hoje a expressão sumiu, e repete-se que, para bem da verdade, devem ser criadas agências de verificação, e proibir as falsidades. Pretendem, sem exame, que isso se introduza na legislação. Aqui o homem razoável pergunta: o que é a verdade para um espírito corrupto? O empenho infinito de auto-justificação deste anda de mãos dadas com a revolução, com as mudanças abruptas e irresponsáveis, seja em jornalistas, comunicadores ou no juiz da mais alta corte.
Como no filme Stalker, um físico, um escritor e uma espécie de guia, não conseguem chegar a um consenso sobre coisas como o que é o altruísmo. Após acusações recíprocas, três cosmovisões irredutíveis, desistem do que estavam fazendo, encontrar o lugar em que caiu o meteorito, onde os desejos sinceros supostamente se realizariam. Diante do fracasso na busca de um consenso renuncia-se prestar atenção nas coisas, e buscar a verdade no próprio ser.
Era tudo isso que os pitagóricos queriam evitar. Essa sociedade com sede na Itália, que teve grande influência na época e depois, proibia seus discípulos de escrever e discorrer sobre os ensinamentos do mestre. Platão adotou um método parecido, deixando escritos para o público em estilo poético, e guardando um ensinamento oral especialmente para discípulos selecionados. Segundo Pitágoras e Platão, a controvérsia pública era prejudicial, e só era possível discutir com quem tivesse um mínimo de conhecimento na arte da discussão e a consciência suficientemente íntegra.
Onde está o escrúpulo humano, que teme o afastamento da Verdade?
O personagem Andrei Rublev, dado à luz pelo diretor Andrei Tarkovsky, é um exemplo dessa luta da alma contra a dificuldade humana de estar na verdade, e muito mais, de dizê-la. Seu escrúpulo chegou até o seu dom de pintar ícones. Ele relutava em pintar imagens do inferno encomendadas, por medo de assustar os fiéis das igrejas. No meio de um trabalho, a igreja que ele pintava foi destruída pelos tártaros. Perdendo sua obra e seus amigos, decidiu fazer voto de silêncio e não pintou mais.
Desde os primeiros cépticos transcorreu muito tempo. Grandes filósofos vieram. Aristóteles afirmou que o homem normalmente está na verdade. Seu inesgotável ensinamento serve de prova.
Porém, vivemos na era da comunicação, e a palavra não é senão um instrumento e uma arma com poder destrutivo. O chavão e a sentença dominantes têm peso de mandamento, e quem pretenda discordar é condenado moralmente e talvez, penalmente. Também temos entre nós aqueles com doutrinas de renúncia, a crendice da neutralidade política.
Mas, e o monge Andrei Rublev acaso resgatará a esperança na arte e neste "breve e vão discurso humano"? O que acontece com ele e com o Stalker, deixo que descubra aquele que deseje apreciar as duas grandes obras do diretor soviético.





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