Mais espera
- Agulheiro 310

- 29 de mar. de 2020
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Na espera é também possível viajar ao lembrar de quando os olhos voltavam sua esperança à janela que entreaberta balançava a cortina de renda amarelada por causa do tempo. Aquela mesma cortina que antiga também carregava rasgos de mau uso, num abrir e fechar frenéticos de quem ouve algo passar e de imediato observa se a espera confirma o bater acelerado do coração, mas nunca confirmou.
Até o cachorro olha compadecido para a cortina que abre e fecha, vítima dos ventos e de mãos atormentadas. Até a senhora, que chega de mãos lotadas, olha chorosa para a janela sabendo que por dentro alguém habita a espera. Sim, pois já não é a espera que habita em alguém mas o oposto, tamanho o grau nunca dantes visto de esperança e o leitor ansioso não vê a hora de saber quem é o alguém esperançoso, mas para o desapontamento não é possível dizer, simplesmente por saber que quem escreve se comprometeu a não fazer como uma Clarice ao se aprofundar imensamente no eu a cada três palavras, portanto a primeira pessoa do singular é promessa de nunca ser proferida.

(Cena do Filme The Wind-1928 Direção: Victor Sjöström)
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