ETERNA DOR
- Agulheiro 310

- 13 de fev. de 2020
- 3 min de leitura
Análise referente ao filme: O Corcunda De NotreDame, 1939, dirigido por William Dieterle, baseado no livro homônimo de Victor Hugo.
Exibido pelo Cine Clube Agulheiro em 12 de Agosto de 2017.
Em filmes antigos há uma seleção especial de atores que representam exatamente características faciais às quais seus personagens serão designados, já que no cinema mudo não há fala, dá-se importância gigantesca às expressões. O olhar de Frollo e também do Quasímodo são vivos e assustadores.
O mundo poderá nos coroar reis ao conquistarmos glória, dinheiro, poder e fama, carregando-nos como grandes mestres. Uma vez que o desagrademos seremos açoitados e postos em um pelourinho pelo mesmo mundo. O ser humano possui uma estranha fascinação pelo feio, e também pelo belo.
No feio sentimos aversão, e também adoração ao ver tamanha miséria sobre alguém, seria engraçado, cômico. Como alguém vive dessa forma? Talvez ao vermos o fraco sentimos que somos fortes, e isso traz a nós um estranho vislumbre de felicidade. Somos miseráveis, aproveitamo-nos e aproveitaremos das fraquezas alheias. Somente a compaixão pode superar o riso sobre o feio. A compaixão é uma forma de aceitação, empatia e amor, pouco presente no homem ordinário.
Entretanto, no belo poderemos em alguns casos sentir inveja por não possuirmos tais atributos, resultando em autoflagelação projetada. Por outro lado poderemos sentir o ardor iluminado do transcendente, da perfeição divina, como a beleza e pureza de Esmeralda.
Os seres humanos podem ser anjos como no ato de compaixão de Esmeralda ao matar a sede do Corcunda no pelourinho, ou demônios sedentos por sangue ao desejarem sua morte somente por ser horrendo.
Phoebus capitão rodeado de mulheres e honrarias representa o herói do mundo, atrás somente das conquistas mundanas, sendo poderoso, altivo e também corruptível, sucumbe à tentação do material, abstém-se de sua alma. Esmeralda apaixonou-se pelo superficial, pelo glamour, e tudo que ele representava, um “amor” focado em volúpia social. Arrependeu-se ao final, uma vez que o Corcunda representando a não aceitação social, o vergonhoso, e ao mesmo tempo o sincero e puro, mostrou-se mais forte que quaisquer situações mundanas.
Frollo como um asceta representava o exílio do mundo decaído, que por muitas vezes traz a redenção, entretanto também pode trazer a amargura, raiva e misantropia. O homem posto à prova deverá enfrentar o inferno, posto em seu meio para que somente assim saiba se de fato consegue suportar os desgostos e infortúnios. Esconder-se poderá levá-lo à loucura, tornando-o o verdadeiro mal.
Gringoire era o espírito do jovem, alegria e progresso, talvez representasse o entusiasmo pré-revolução francesa. A vontade pela mudança, um marco importante seria a criação da imprensa, a forma de compartilhar informações rapidamente à população, modificando comportamentos, e também incitando-os, seja para o bem ou mal.
Esmeralda representa a divindade de uma mulher enigmática e inocente, a qual também poderá enganar-se como no caso de Phoebus, ou trazer virtudes, como compaixão ao Corcunda que mesmo chicoteado não chorava ou gritava, pois sua vida já fora e é tão tortuosa que um mero açoite nada representa. Esmeralda era capaz de magneticamente apaixonar os homens, uma força incontrolável, que toda mulher bela e virtuosa possui, ela também poderá representar o lado elevado com o puro, ou o diabólico com a manipulação.
Toda França entrou em debate para inocentar ou sentenciar Esmeralda que acabou liberta, e com proteção incessante do Corcunda. Sua súplica a Deus no alto da torre após atirar pedras e palanques sobre quem tentava invadir parecia com um urro por ver-se pecando em prol de seu amor, o qual jamais poderia ser correspondido por ser tão horrendo; embora puro –, o amor que possuímos por Deus jamais poderá ser retribuído em totalidade aqui na Terra.

(Cena do Filme O Corcunda de Notre Dame-1939)
Por hora deveremos sofrer o jugo do não correspondido, do mundo falso, da maldade, das misérias e mazelas, das dores, das maiores das solicitudes, o puro e bruto sofrimento. Aquém do transcendente somente isso que nos resta - isolados em uma torre alta, sempre solitários.




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