Entre o Desconhecido e a Hipocrisia: Uma pequena Análise do Documentário Silenciados.
- Agulheiro 310

- 8 de mai. de 2020
- 5 min de leitura
Entre assistir um documentário falando sobre assassinatos e um youtuber falando sobre as belezas de uma ditadura, muitos preferem a segunda opção. Na primeira opção, somos confrontados com uma realidade que não é bela, na segunda somos ludibriados pelas belezas turísticas, feito justamente para esse fim, causando uma sensação de liberdade mesmo que para sair do hotel hospedado você necessite obrigatoriamente de um guia ou obrigatoriamente precise fazer reverência para uma estátua.
Documentários podem ser difíceis de assistir, pois podemos alegar que um documentário vai trazer aquilo que vemos todos os dias no noticiário. Um documentário e um noticiário (não estou equiparando os dois) nos trarão uma realidade, uma informação e não uma opinião, opinião temos a nossa acerca de diferentes assuntos.
O cineasta polonês Andrzej Wadja, que sofreu com a censura socialista, achava que, seus filmes por serem financiados com dinheiro público, tinham de ser uma resposta fiel para o povo, sobre suas aspirações, preferências e inquietações.
Sobre o documentário Fernão Ramos vai nos dizer o seguinte:
[…] podemos afirmar que o documentário é uma narrativa basicamente composta por imagens-câmera, acompanhadas muitas vezes de imagens de animação, carregadas de ruídos, música e fala (mas, no início de sua história, mudas), para as quais olhamos (nós, espectadores) em busca de asserções sobre o mundo que nos é exterior, seja esse mundo coisa ou pessoa. Em poucas palavras, documentário é uma narrativa com imagens-câmera que estabelece asserções sobre o mundo, na medida em que haja um espectador que receba essa narrativa como asserção sobre o mundo. A natureza das imagens-câmera e, principalmente, a dimensão da tomada através da qual as imagens são constituídas determinam a singularidade da narrativa documentária em meio a outros enunciados assertivos, escritos ou falados.
Fernão Ramos vai explicar a diferença entre documentário e ficção. Mas aqui o objetivo é outro, é a essência do documentário: estabelecer asserções sobre o mundo.
Deixamos os youtubers se deleitarem na obrigatoriedade da beleza turística e vamos falar mais sobre o documentário.
Lembro que no curso de psicologia uma professora defendia com unhas e dentes a crise da pobreza como um fator essencial para a delinquência, assassinatos, roubos e estupros. Com essa pragmática ela coloca todos os pobres (entenda-se aqui pobre como uma pessoa de baixa renda) no mesmo patamar, ou seja, ser pobre é necessariamente ser um delinquente, coisa que na prática sabemos que não é verdade. Adolf Hitler não era pobre quando assassinou milhões de judeus, Joseph Stalin não era pobre quando matou milhões no Holocausto Ucraniano, conhecido como Holodomor¹, os irmãos Loeb² que eram ricos e mataram um garoto apenas pela vontade de cometer um crime perfeito, o índio Galdino teve 95% do seu corpo queimado por quatro jovens bem abastados³, no Paraná em 2015 um ex-deputado fazendo ‘racha’ causou um acidente matando dois jovens 4 e em União Da Vitória, cidade do Cineclube Agulheiro, a jovem Zilda dos Santos foi por sete dias violentada e torturada por jovens de classe alta 5.
E poderíamos fazer uma extensa pesquisa para contrapor nossa adorada professora, mas não há necessidade para tanto.
No documentário o que deveria predominar é a verdade, não que seja regra. Em Democracia em Vertigem (Petra Costa- 2019), vemos essa falta de compromisso com a verdade, a personificação de um verdadeiro bandido e miserável que é idolatrado como um herói do Brasil, um verdadeiro Macunaíma o herói sem nenhum caráter6. Vemos belas imagens com uma narrativa vazia para convencer o desavisado espectador.
E os homens são tão pobres de intelecto que um simples calafrio pela coluna vertebral abaixo basta para mantê-los afastados da verdade a respeito das coisas. (MERTON, 1957, p.34).
No documentário Silenciados (Daniel Moreno- 2016), somos confrontados com a verdade, apenas isso. A verdade que silencia nossa hipocrisia. Números reais, pessoas reais, sem pretensões ao fardo do falso heroísmo, estão conversando conosco sobre as mais doloridas feridas, a perda de um ente querido, como se não bastasse o ente é o filho, nosso filho, pois estamos fazendo parte desse documentário, estamos ouvindo o que essas pessoas, até então desconhecidas, querem nos falar, é um silêncio que vem do coração.
Silenciados não é um documentário com uma beleza que transcende, mas com uma narrativa verdadeira que nos coloca frente à triste realidade de um país que vive com números de uma guerra civil, como é descrito no início do documentário, nos alertando que o Brasil vive em paz com mais assassinatos que um país que está em guerra. Não queremos acreditar no que estamos vendo, crimes bárbaros que ocorrem diariamente a nossa frente, pessoas que apenas são números para nossa ignorância, mas que esses números tinham nome, endereço e alguém para lhe esperar e dar um abraço ou apenas um boa noite.
O documentário não é sofisticado, tem um toque de simplicidade que eleva nossos olhos em busca de um conforto e nosso coração em busca de paz. São simplesmente pessoas falando sobre a saudade e indignação.
Silenciados vai nos mostrar algo escondido em estatísticas puramente ideológicas, e quando somos surpresos por uma realidade tão próxima ficamos sem fôlego. Não queremos essa realidade, queremos a realidade do Festim Diabólico (Alfred Hitchcock- 1948) a realidade da ficção. Não queremos esse confronto direto com diálogos, imagens, pessoas. Não queremos essa realidade apresentada no documentário.
Silenciados foi filmado com um recurso visual impactante o preto e branco, únicas cenas coloridas são de imagens do arquivo pessoal de cada entrevistado nos dando uma impressão da memória viva. No cinema nacional o criminoso sempre vem com uma áurea angelical passível de empatia, Democracia em Vertigem e o Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla-1968) são exemplos fiéis a essa temática. No documentário Silenciados, essa temática é vista de outra perspectiva acabando com essa tendência criminosa grotesca, dando voz às pessoas para contar suas histórias e para ficarem disponíveis para todos que quiserem assistir.
REFERÊNCIAS
RAMOS, Fernão Pessoa. Mas Afinal... O Que é Mesmo um Documentário. BRASIL: SENAC, 2008.
MERTON, Thomas. A Montanha dos Sete Patamares. 5° ed. São Paulo/SP: Ed. Merito S.A., 1957.
ANDRADE, Mario de. Macunaíma, O herói sem Nenhum Caráter. 10ª ed. São Paulo, Ed. Martins, 1974.
Sites dos Crimes Citados por ordem.
¹ A fome na Ucrânia - um dos maiores crimes do estado foi esquecido: Mises Brasil, 3 de julho de 2018. Disponível em:<https: //www.mises.org.br/article/1046/a-fome-na-ucrania--um-dos-maiores-crimes-do-estado-foi-esquecido>.
²Leopold e Loeb Tentou Cometer o Assassinato Perfeito: GREELANE, 25 de Março de 2019. Disponível em: < https://www.greelane.com/pt/humanidades/hist%C3%B3ria--cultura/leopold-and-loeb-1779252/>.
³ Índio é Queimado por Estudantes no DF: Folha de S. Paulo, 21 de Abril de 1997. Disponível em:< https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff210401.htm>.
4 Acidente provocado por ex-deputado e que matou jovens completa 6 anos: RPC, 7 de maio de 2015. Disponível em:< http://g1.globo.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2015/05/acidente-provocado-por-ex-deputado-e-que-matou-jovens-completa-6-anos.html>.
5 “Zilda, o assassinato da Santinha”: VVALE, 29 de Março de 2019. Disponível em: <https://www.vvale.com.br/entretenimento/zilda-o-assassinato-da-santinha/





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