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As Harmonias de Werckmeister, o Velho e o Mar.

  • Foto do escritor: Agulheiro 310
    Agulheiro 310
  • 11 de set. de 2020
  • 3 min de leitura

Por Cineclube Agulheiro.


O universo no olhar do jovem Húngaro János Valuska que dentro de um bar fez caber todos os planetas a girar em torno do sol bêbado e luminoso que recriava seu eclipse. De um modo desajeitado, todos aceitaram entrar na dança galáctica e a representação foi esplêndida e perturbadora até a hora que precisavam todos sair para que o bar fechasse as portas. Era escuro e a canção que não foi ouvida pelos personagens acompanhou János até o lar que o abrigava.

János vivia com seu amigo e compositor György Eszter, que estudava as composições de Andreas Werckmeister, este último fez descobertas relacionadas às teorias das bases musicais harmônicas no século XVIII e György observou algumas imperfeições nas escalas musicais de Andreas. Assim como as imperfeições nas harmonias, György também fazia parte de um grupo de artistas políticos, chamado intelligentsia.

Na espera pelo circo que chegava com uma atração nova, toda a cidade por mais gélida e nublada alegrou-se com o inusitado. Não demorou muito para as filas se formarem na praça e para que outros aproveitassem para ganhar alguma coisa com a situação.

A atração nada mais era que uma baleia empalhada dentro de um baú de caminhão e Valuska, que outrora preparou a dança ordenada do cosmos, estava encantado com aquele ser extático, de olhos bem abertos, enorme e longe do seu oceano. Como dois seres distantes de seus verdadeiros lares, Valuska e a baleia tornavam-se um à medida que o homem pensava na criatura. A baleia não veio só, junto dela estava um homem que se dizia príncipe e suas palavras agitaram toda a população e grupos se levantaram para lutar contra as coisas que eles achavam que deveriam lutar.

Após esse breve resumo do início de um filme de longas cenas, com um barroco evidente, como as harmonias do compositor, logo meu veio à mente O Velho e o Mar. A baleia e o Valuska criaram um diálogo silencioso. Valuska sentia-se impotente diante da maior criatura que ele já havia visto, e que provavelmente a maioria dos homens sequer verão. Um misto de compaixão e de pacto foi selado nessa cena e os olhos de Valuska passaram a mudar cada vez que entrava em contato com a gigante dos mares. Valuska ficou cada vez mais com olhares de baleia.

E Santiago, um pescador cubano, com grande experiência, aproximou-se da cena na fria Hungria para compartilhar dos sentimentos de Valuska. Há quase cem dias não conseguia pescar, todos já olhavam com pena para o pobre senhor que aparentemente já não tinha mais forças para a atividade pesqueira. Um menino chamado Manolin admirava muito Santiago, mas também foi obrigado a se afastar de Santiago para poder pescar e garantir o sustento da casa. O velho estava na total solidão, quando se viu no maior dilema de sua vida: em uma manhã de pesca, que aparentemente seria improdutiva mais uma vez, um peixe de mais de cinco metros surge aos olhos de Santiago o qual consegue capturá-lo. Mas a luta entre o homem já descrente e a criatura que lutava com todos os seus instintos levou-os ao alto mar. Santiago ao conseguir finalmente vencer a luta descomunal começou a voltar para casa com o seu velho barco e os tubarões começaram a atacar o seu prêmio. A luta continuou e quanto mais os tubarões levavam do seu peixe, mais Santiago tornava-se cúmplice da sua incapacidade diante de certos problemas da vida e ao mesmo tempo, sua compaixão para com a pobre criatura presa ao seu barco levou-o a imensos pensamentos. Ao chegar novamente à beira do mar, apenas a carcaça do grande peixe havia sobrado, mas ao mesmo tempo, Santiago tornou-se uma verdadeira lenda aos demais pescadores, pois eles jamais haviam visto peixe maior.

A cumplicidade entre homem e criatura nas duas histórias é capaz de me levar a algumas reflexões: ambos estão em uma luta constante pela sobrevivência. Enquanto Valuska não se desvencilha mais do olhar da baleia, uma criatura que pode ter visto muito do mundo e ao mesmo tempo sofrido nas mãos de outros homens; Santiago luta com a criatura para manter o seu nome vivo entre os pescadores.

Valuska faz seu amigo György compreender apenas pelo olhar que as harmonias nem sempre bem marcadas podem estar muito longe do alcance político e intelectual. Santiago mostra para Manolin que para fazer seu nome não é possível desistir, ou deixar-se levar pela compaixão alheia.

Pode ser que a maturidade esteja entre os dois casos: quando o eclipse solar passa a harmonia volta ao porto.





 
 
 

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