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A mulher solitária

  • Foto do escritor: Agulheiro 310
    Agulheiro 310
  • 20 de set. de 2020
  • 3 min de leitura

Por Cineclube Agulheiro.


O filme começa com episódios corriqueiros, na banalidade, naquilo que todos fazemos ou ouvimos dizer que se faz. Em viagem para gravar um filme, uma mulher estrangeira, no intervalo das filmagens, anda pela cidade para explorá-la. O tédio é pai de muitos vícios.

A primeira cena é um dos pretensos acasos que se seguirão. Tudo começa na parte mais decadente de Lisboa, num tipo de bairro daqueles que permeiam nossas grandes cidades brasileiras, com ruínas e pichações, a partir da qual se sobe aos poucos à capital histórica.

Julie admite que vem de vários relacionamentos pouco duradouros, e até vê altruísmo em se entregar aos homens, como quando diverte Martin, o artista casado, também de passagem para a filmagem.

Em suas andanças conhece Vasco, o menino cuja mãe adotiva deixa na rua enquanto está trabalhando e tem notícia de irmã Joana, chamada "santa", que frequenta a capela todas as noites.

Aqui faço um parêntese para avisar que A religiosa portuguesa (Eugène Green, 2009) não resume aquele saudosismo que atribui a decadência à época em que se vive, para "voltar ao passado", originalmente interpretado em Meia noite em Paris (Woody Allen, 2011). Os personagens históricos exercem outra função na história lisbonense.

Assim é com o descendente do Conde de Viseu, aristocrata arruinado com quem Julie terá outro romance rápido e com a "reencarnação de D. Sebastião". A própria filmagem, dentro do filme, que está sendo feita é um relato de um traço da história pouco evangélica de Portugal.

Até o momento em que o seu diretor, encarnado pelo próprio Green, a convida para conhecer a noite da capital, a narrativa parece ser mais um conto humanista, como diria João Pereira Coutinho sobre os filmes de Allen.

Um processo tem início quando Julie ouve as canções de Aldina Duarte. Será outro elemento acidental que, durante a exibição, a representação do Espírito Santo apareça em close? O bar é um sítio tipicamente mundano.

Aqui já ficou claro o estilo greeniano: os diálogos campo contra campo, quase robóticos e livres de "impurezas", entremeados por todos e partes da arquitetura do Velho Mundo.

A segunda etapa do filme começa com uma frase significativa de Julie, quando esta recusa ser companhia de "D. Sebastião" em uma discoteca suburbana: "devo ter paciência", "não posso ser mais rápida que o meu próprio destino".

Ela vai procurar Irmã Joana e, após um desmaio tem um diálogo com a freira. "Tenho apenas buscado amores profanos", a irmã lhe responde: só há um amor, a única diferença é a qualidade.

"Sou uma atriz, tento, através de coisas irreais, mostrar algo que seja verdadeiro", ao que a irmã responde que o Criador fez a mesma coisa ao criar o mundo.

Como conceber que coisas profanas fossem iguais a coisas divinas? O que quer dizer a irmã? Suas palavras deixam atônito quem quer interpretá-la num mesmo nível de compreensão. Julie não quer mais amores profanos, ela quer ser amada por Deus, mas está prisioneira do mundo. Porém, "Deus não está fechado num convento", insiste a irmã.

Tudo parece relativizado colocado dessa forma, como quando pensamos que nossa vida de agora e uma provável nova vida não difeririam na aparência. Julie não é exatamente a encarnação do mal, mas é presa do tédio, do ciclo cosmológico interminável. Fora da "qualidade" dita pela irmã, os amores são iguais, ainda que as coisas sejam as mesmas, as coisas terrenas, uma ou várias, tanto faz. É à mudança de perspectiva, ao salto qualitativo, que a irmã pode estar se referindo, que é quando "amamos a ponto de deixar de ser tudo o que não somos", para " ser vida", e a vida dá à luz.

O tédio não é apenas a rotina, aquela sucessão de eventos sem significado que aborrecem, mas o foco no tempo transformando tudo na ruína vilipendiada de um edifício, como aquele da primeira tomada.

Julie agora vê dois passos no horizonte, o futuro incerto de Vasco e a presença de "D. Sebastião". A curiosa figura histórica alude a um rei de Portugal. Ele ficou envolvido em uma atmosfera supersticiosa quando desapareceu na guerra e dizia-se que voltaria para retomar o trono. Chamavam-no "o desejado". Quando Julie o rejeita pela segunda vez ela já adotou uma nova ética, “D. Sebastião" parece ser um aspecto seu, que não é autenticamente ela.

O "dar à luz" de Irmã Joana é não só a maternidade, mas a participação na criação, participação como demiurgo.

Às vezes é difícil dizer se alguns personagens são "reais" ou se são pedaços de Julie. A irmã Joana é o fator ordenador da sua vida naquele momento, quando ela se sentia um "pedaço de madeira no rio", e a partir do encontro, até a vida pregressa parece ter um significado.






 
 
 

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©2020 Cineclube Agulheiro 310.

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