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A Impotência Humana e o Tribunal Popular

  • Foto do escritor: Agulheiro 310
    Agulheiro 310
  • 13 de ago. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 13 de ago. de 2020

Por Cineclube Agulheiro


Eis que mais uma vez somos levados, os crédulos e os incrédulos, a discutir um mesmo tipo de factoide, que é interpretado sempre com os mesmos lugares comuns de tudo o que é compartilhado e noticiado com estardalhaço na mídia: a discussão entre um motoboy e o morador de um condomínio do estado de São Paulo. Se o intuito fosse o analisar com algum proveito, as pessoas teriam notado que a "humilhação" não foi senão uma troca de impropérios e insinuações, que tiveram começo num gesto bobo de ambos. Mas em que a nós, cidadãos metralhados pela informação diária, esta remota circunstância pode importar? Na psicologia humana, e como ela nunca se resolve quando uma minoria explora os símbolos politicamente, e a massa vai atrás dela na ânsia de registrar sua opinião ou bom-mocismo.

Olavo de Carvalho diria que isso é um conflito da quinta camada da personalidade, porque os envolvidos parecem nunca se perguntar o que ganhariam de fato com tudo isso, no nível do espírito.

A controvérsia terminaria em duelo para Julien Sorel do filme O Vermelho e o Negro (Claude Autant-Lara, 1954), drama que gira em torno destes conflitos de classe na sociedade, e do que é honra no fim das contas. A psicologia dos personagens é mais detalhada no seu livro de inspiração, Le Rouge Et Le Noir (Stendhal). Julien é um protótipo de Raskólnikov. Seu brilho intelectual e sua ambição de juventude por feitos grandiosos são talhados pela nascença inferior, o que o impele à busca de uma justificação para suas crenças. Esse desencaixe termina em paixões e na condenação à morte.

Para Raskólnikov, alguns homens são especiais, superiores. Ou seja, nem a vida de outro é impedimento moral para detê-lo em seus feitos, como Napoleão. Matar e roubar neles não é imoral. Isso em teoria. O ex-estudante é um intelectual cujos artigos são conhecidos na São Petersburgo. A doença e a fúria se juntam, ele se convence de que precisa personificar o super-homem e dá o primeiro passo: matar algum "piolho" da sociedade. A crise de remorsos vem e ele tem duas possibilidades: auto-afirmar sua psicose ou trilhar o caminho da redenção, admitindo ser o "piolho" da própria teoria.

Tanto Raskólnikov, de Crime e Castigo (Lev Kulidzhanov, 1970) baseado em Dostoiévski, como Julien Sorel, não têm a opinião pública a seu serviço, para forçar uma retratação sem sinceridade do algoz, quando o seu sofrimento se encaixa em certos "cânones de justiça social”. Não têm nem um Luciano Huck, para simular escândalo e reforçar um mito.

Por baixo disso há um elemento que está também nos personagens do incidente brasileiro: a consciência da impotência. Um fantasma que às vezes parece nos querer indicar uma direção que recusamos, conforme nosso orgulho ou caráter.

No fundo, ele está lá, em ambos os lados. Não basta eu "ser algo", eu preciso prová-lo, impor a quem convém ou disso dar notícia. Se sou pobre e consegui o que tenho com trabalho, sou melhor em dignidade, se sou rico e branco sou maior em poder, em possibilidades, em sorte. O trauma, quem sente é o mais fraco no momento em que as cartas são colocadas na mesa. Mas o sentimento está lá, o Raskólnikov da impotência humana, que precisa se escorar em uma teoria, ou qualquer criação de última hora para suportar o esmigalhar moral sofrido. Se tudo falhar, a opinião pública julgará, símbolos convenientes politicamente serão reforçados e não teremos o mesmo fim de Raskólnikov, nem a aceitação de Julien Sorel, de que tudo perante a morte fica diferente. Aliás, diante da morte sobram poucas coisas, e é fácil esquecê-las quando de uma afronta banal, como ser obrigado a dar mais alguns passos para entregar algo a um insolente.




 
 
 

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