A CANÇÃO DE BERNADETTE E A CULTURA AMERICANA DA DÉCADA DE 1940.
- Agulheiro 310

- 24 de out. de 2020
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Por Cineclube Agulheiro
É no mínimo curioso, o percurso para melhor apreciarmos o brilhante filme de 1944, que retrata aspectos biográficos da vidente de Lourdes, Bernadette Soubirous, e que venceu o Óscar de melhor filme. Desde o início do século XX, ocorre, influenciando as belas artes, um fenômeno nomeado de Renascença do Harlem – que exteriormente popularizou o jazz e ícones relacionados a uma manifestação de evidente progressismo e rompimento com os valores cristãos presentes na sociedade americana. Sobre este véu de liberalismo moral, agudizado sobretudo, na década de 1920, tudo o que parecia marginal foi considerado atrativo para os liberais americanos: tudo o que fosse maculado pela escravidão, manifestamente latino, ou mais agudamente, algo católico, visto como uma estranha e corrupta forma de cristianismo professada por imigrantes grosseiros, em especial irlandeses e mexicanos.
Existia à símile do mais famoso renascimento – o renascimento italiano - que se espalhara pela Europa nos séculos XV e XVI o mesmo odor neopagão. O ideal progressista que mesclava às apalpadelas o espírito revolucionário com Freud via com amargor tudo aquilo que suscitasse os valores cristãos, ainda com a barafunda de opiniões protestantes características dos Estados Unidos. Tanto para esquerdistas renomados, como o poeta Claude McKay ou Max Eastman, quanto para um pastor presbiteriano anônimo, existia um mal eminente na América, um “mal católico”.
Entre o paganismo disfarçado de hedonismo, e o satanismo disfarçado de doutrina econômica, prodigiosamente crescia a fé católica. Eram tempos de Fulton Sheen como grande voz doutrinária, mas também de modelos antagônicos de intelectuais católicos, como Thomas Merton e Jack Kerouac (ainda que o último se afirmasse como católico, mas vivesse como outros confrades liberais). Bom, e o filme de 1944? O que ele nos diz? Vamos apontar alguns aspectos às vezes não percebidos.
O Padre Peyramale
O rígido pároco de Soubirous na trama, Pe. Peyramale encarna parcialmente um exemplo do que se pode chamar psicologia da fé. Prudencial e zeloso, não formalmente rejeita a aparição de Lourdes, nem despreza Bernadette, mas considera pouco crível. Como pode uma simplória menina dirigindo-se à gruta de Massabielle, receber a visita da Santíssima Virgem? Como poderia no conteúdo da visão estar contido um dogma, até então não proclamado pela Igreja, o dogma da Imaculada Conceição?
Tais dúvidas quanto à revelação privada, em pleno século XIX não acometiam apenas o pobre cura, da distante e esquecida Lourdes. Brandiam a espada contra a suspeita de algo extraordinário, ou de mais uma forma de devoção popular, cuja procedência seria esquecida, e cuja mensagem, nem um pouco ortodoxa, seria silenciada pela diocese local. Como ensinam os bons escolásticos, a fé é uma virtude teologal. É fato que Peyramale cria no magistério da Igreja. Mas a fé trata do que não é visto, enquanto a ciência nos faz crer no que vemos. Apenas a pequena Bernadette via a Virgem Santíssima entre a multidão que cada vez mais, se aglomerava. Quando a água milagrosa passa a trazer a visão aos cegos, e faz andar o coxos não se pode por muito recalcitrar: o descrente sacerdote se torna um verdadeiro pai espiritual.
Irmã Maria Teresa Vauzou
Quão miserável é o coração assaltado pela inveja. Como ensina a sã teologia moral, a inveja é uma espécie de tristeza, que difere do temor, pois este se agarra a um mal possível. A inveja em si mesma endurece o coração com a manifestação da excelência ou da glória alheia. Assim, um coração invejoso corrói as próprias fibras e perde a capacidade de se dilatar por amor. Eis o coração da pobre Irmã Maria Teresa Vauzou, que não se aferrando à divina providência, ataca a pobre Bernadette Soubirous, em inúmeros episódios de indiferença e vaidade manifesta. Como podia tal simplória menina, sem letras, paupérrima ver a Santa Mãe de Deus? Uma das mais conhecidas parábolas das Sagradas Escrituras poderia retratar a religiosa como o irmão murmurante do filho pródigo. Mas eis que, a humildade da pequena Bernadette causa o derretimento da inveja com o padecimento paciente da doença que a afligia.
A miséria humana expressa na doença como uma fraqueza física é a luz que revela a miséria espiritual. Entre as duas misérias; a da adoentada Bernadette e a da amarga Irmã Maria Teresa, triunfa a caridade: se faz presente o perdão, a graça, o arrependimento. Dentre as lições que este belo filme nos reserva se encontra algo que nos eleva. Ver-se na descrença, na miséria e na inveja, olhando para o próprio interior, perceber o próprio nada; para dar glória Àquele que é tudo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AQUINO (Santo), Tomás de. Da Inveja (Q 26, A 1) Suma Teológica: Volume 3, IIa IIae. Campinas: SP, Ecclesiae, 2016.
JONES, Eugene Michael. Libido Dominandi: libertação sexual e controle político. Campinas: SP, Vide Editorial, 2019.






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